O que é o cinefilia em curso?
Ainda faz sentido, senão como jargão datado, falar de cinefilia em tempos de streaming e salas de cinema concentradas nos templos de consumo impessoal que são os shoppings centers? Como falar e portanto reviver uma prática cultural com aparente data de nascimento e morte? A cinefilia, mais do que pode indicar a etimologia da palavra, não é o amor ao cinema em abstrato. Tampouco se resume a um fetiche ou prática de culto cerimonial.
A cinefilia, como toda prática cultural que acontece no solo material da história, se constitui como processo conflituoso, heterogêneo, ambíguo, muitas vezes paradoxal. Assim como os movimentos anarquista e comunista europeus se apropriaram do conceito de “club” (prática associativa ligada às elites inglesas do século XVIII) para subverter sua natureza de classe, fundando os primeiros cineclubes da história, a cinefilia também é multifacetada.
A cinefilia não se deu na história apenas como prática elitista, sectária, de legitimação cultural de determinado gosto estético e “autores de cinema” eleitos por revistas “especializadas” e seus intelectuais. Sob determinado aspecto, a cinefilia foi também uma prática emancipatória exercida por autodidatas, entusiastas, militantes e amadores em torno de um objeto e uma prática em comum: o cinema e a auto-organização do público. Esta prática de autodidatas e amadores resultou muitas vezes no embaralhamento emancipador entre os que agem e os que olham, transformando espectadores em críticos, cineclubistas, cineastas.
É nesse sentido emancipador que a cinefilia permanece viva, como formação de comunidade em torno de uma prática em comum. É a este tipo de prática, com todas as contradições que possam envolvê-la, que este canal de estudos e debate quer se dedicar. Afinal, mais que uma forma elitista de legitimação cultural e estética, a cinefilia que buscamos é uma prática coletiva emancipadora, uma aventura estético-política entre signos cinematográficos.
Danilo Dias de Freitas. Julho de 2025.